
Mãe cadê meu pai?
Mas nem no dia das mães Dijanira? Dijanira eu já te falei. Não gostei nada daquela fita que você gravou. Amaldiçoando teu pai com tanto ódio, menina, toma jeito. Deus não está feliz contigo.
Poxa, sacanagem ser a porra do esperma escolhido para um mundo de vida sem pai. Tudo é o pai. Vem eles: Quem é teu pai? Garota, qual o nome do teu pai? Queria nem ouvir, pensei que seria melhor ser surda, talvez deveria furar os tímpanos.
Ficou louca?
Vou ler um pouco, mãe, não tem outra forma de fugir de mim, lendo esqueço meu fardo. Esse homem dentro de mim. Me sinto na verdade uma gota de homem, tem um homem dentro do meu embrião, o que você me deu mãe. Me deu?. O sexo de vocês, quem sabe mecânico, quem sabe bem sádico, quem sabe didático ou mais que alucinante. O que importa? Já nasci, estou aqui agora, entumecida pensando em beber insecticida com gambás e minhocas. Tendo medo todo dia, calafrios, esperanças. Já fui até criança. Sobrevivi a morte da inocência, sucumbi por coerência. Depois me reconstruí. Hoje luto apenas nas datas comemorativas. Contra o sistema, consumo é o sumo do problema. Sou louca mãe? Quem eu sou, como estou quando estou absorta?
“A Eva e Adão ainda restava a possibilidade de gerarem um filho para compensar a perda do assassinado, mas bem triste há de ser a gente sem outra finalidade na vida que a de fazer filho sem saber por que nem para que. Para continuar a espécie, dizem aqueles que creem num objectivo final, numa razão última, embora não tenham nenhuma ideia sobre quais sejam e que nunca se perguntaram em nome de que terá a espécie de continuar como se fosse ela a única e derradeira esperança do universo”.
Saramago - Caim -página, 40.
Quis ouvir uma música e imaginem só… ♪♪♪♪♪♪♪♪♪♪♪
Ressuscita-me - Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja pelo menos o Universo
E a mãe
Seja no mínimo a Terra
A Terra
A Terra
(o amor - caetano)