1. Pequena Polpa

    Empapuçar-se

    de Pequena Polpa

    Lamber a roupa da fruta,

    como se lambe

    as cascas das uvas

    Tirar, escalpelar e

    sorver a polpa.

    Jogar a cara a tapa

    numa sopa de sapa

    colher nos campos

    verborragias roucas

    do seu olho mini-aberto,

    do seu suspiro ereto

    AH! {pequena polpa}

    desfez-se em mim 

  2. ET: Sempre soube onde era sua casa, sempre quis voltar à ela rapidamente, para que não se contaminasse com a possibilidade de materialização de um fio de esperança, que o faria gostar da Terra, planeta para ele, só passagem. Em sua nave chegou, mas, voltou de bike, por ser sustentável e não poluente. Não se deve poluir o que não se sente. Nunca sentiu nada por aqui, além da vontade de querer voltar para sua casa, e se livrar do telefone. 

    E.T. Minha casa, onde poderia ser? E.T. 

    O alicerce do meu ser, serpente, serpentina, incoerentes na retina… 

    Toda vez me vem na cabeça aquelas mesmas sílabas do poema de antes, devo continuar ou ser intolerante? Devo ignorar a primeira pessoa latente no verbo do parágrafo? Ou devo apenas celebrar os hiatos? 

    Queriam me matar, eu vi, puseram glutamato no meu salgado. Eu pensei: Desgraçados! Venderam um sonho cheio de açúcar para um menino de rua. Falaram na tevê que a vida seria doce, e isso se repetiu como um mantra por todos os meus caminhos amargos. 

    Foram essas e outras atrocidades que eu vi pela cidade, uma mulher que tinha treze filhos em escala simétrica, estava disperça olhando um passáro pousar na vida do crime. Roubava uma migalha de uma velha centenária. Tantas coisas na cidade, tantos remédios por aqui, tantas possibilidades de nada, todos os dias os abusurdos se costuram nas palavras.  

  3. Suplício Intermitente

    bem, bem, meu bebê chora com o beiço.

    bam, bam, o relógio marca horas de dor.

    bem, bem, temos certezas de ninguém.

    bem, bem, ninguém vem meu bem.

    pedir para que e pra quem? 

  4. vespa!

    Sim vespa, você pode entrar na sala branca e voar em círculos. Está pensando em manter a roda coordenada, alternando o zumbido e o bater das asas? Zunindo longe os segredos que te trouxeram até o momento exato de um encontro comigo. Paredes e luzes brancas me atraem tanto quanto a você. Vespa, venha me ver e ouvir um conto sobre quando uma mulher em prantos quis voar de sacanagem. Não tinha asas como as suas, e mesmo se tivesse, não seriam suficientes para o tamanho do voo que pensava em dar. Vespa, sua certeza de inseto faz inveja a qualquer parcimônia humana. Quando lá de cima me fita, estou petrificada e intacta no tempo embaixo, observando sua desenvoltura do alto da minha pequenina análise sobre voos e asas exatas. Quando quiser, passe na minha casa, vamos ser menos distantes, voe mais perto do meu horizonte. 

  5. “estivemos”

    estivemos juntas, copulamos

    eu e a esperança

    estivemos juntas na abonança

    agora que jaz aqui o vazio

    me deixou sem desatino

    meu cala frio me roubou

    andarilho do amor?

    estivemos de mãos atadas

    falava-se em eternidade

    conforto e verdade

    agora que não enxergo

    nem verbo

    nem lasco epiderme

    nem soslaio 

    nem rima breve

    corpo junto por calor

    ânsia de cheirar flor

    entre as pernas 

    o vão não está vazio

    coberto está pelo

    silêncio do tímpano

    tapado por panos

    carburado em sonhos

    ninguém me pediu:

    não me esqueça!

    ninguém consentiu 

    com a cabeça

    ninguém me amou

    e eu se quer fui

    de qualquer outrem

  6. [quando a casca da ferida não faz mais sentido]
regenerar-se até certo ponto,
já dizia uma amiga de goles
“há um limite para tudo que se consome”
faz uma reza, engole mais um sapo, 
pedra no sapato até curupira tem
teu tique nervoso não interessa a
ninguém

yamithhead:

Child with Toy Hand Grenade in Central Park, New York City (1962) This is a version animated of a great picture from a great photographer Diane Arbus. Here is the original photo

    [quando a casca da ferida não faz mais sentido]

    regenerar-se até certo ponto,

    já dizia uma amiga de goles

    “há um limite para tudo que se consome”

    faz uma reza, engole mais um sapo, 

    pedra no sapato até curupira tem

    teu tique nervoso não interessa a

    ninguém

    yamithhead:

    Child with Toy Hand Grenade in Central Park, New York City (1962) This is a version animated of a great picture from a great photographer Diane Arbus. Here is the original photo

  7. Dia das Mães


    Mãe cadê meu pai?

    Mas nem no dia das mães Dijanira? Dijanira eu já te falei. Não gostei nada daquela fita que você gravou. Amaldiçoando teu pai com tanto ódio, menina, toma jeito. Deus não está feliz contigo.

    Poxa, sacanagem ser a porra do esperma escolhido para um mundo de vida sem pai. Tudo é o pai. Vem eles: Quem é teu pai? Garota, qual o nome do teu pai? Queria nem ouvir, pensei que seria melhor ser surda, talvez deveria furar os tímpanos.

    Ficou louca?

    Vou ler um pouco, mãe, não tem outra forma de fugir de mim, lendo esqueço meu fardo. Esse homem dentro de mim. Me sinto na verdade uma gota de homem, tem um homem dentro do meu embrião, o que você me deu mãe. Me deu?. O sexo de vocês, quem sabe mecânico, quem sabe bem sádico, quem sabe didático ou mais que alucinante. O que importa? Já nasci, estou aqui agora, entumecida pensando em beber insecticida com gambás e minhocas. Tendo medo todo dia, calafrios, esperanças. Já fui até criança. Sobrevivi a morte da inocência, sucumbi por coerência. Depois me reconstruí. Hoje luto apenas nas datas comemorativas. Contra o sistema, consumo é o sumo do problema. Sou louca mãe? Quem eu sou, como estou quando estou absorta?

     “A Eva e Adão ainda restava a possibilidade de gerarem um filho para compensar a perda do assassinado, mas bem triste há de ser a gente sem outra finalidade na vida que a de fazer filho sem saber por que nem para que. Para continuar a espécie, dizem aqueles que creem num objectivo final, numa razão última, embora não tenham nenhuma ideia sobre quais sejam e que nunca se perguntaram em nome de que terá a espécie de continuar como se fosse ela a única e derradeira esperança do universo”.

    Saramago - Caim -página, 40.   


    Quis ouvir uma música e imaginem só…

    Ressuscita-me - Para que a partir de hoje
    A partir de hoje
    A família se transforme
    E o pai
    Seja pelo menos o Universo
    E a mãe
    Seja no mínimo a Terra
    A Terra
    A Terra

    (o amor - caetano)

  8. O irmão renegado da família Kynodontas

    O irmão renegado da família Kynodontas

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